quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Eu tenho pra vender, quem quer comprar? ♪

“A intensidade da propaganda da crise, poderá ditar a velocidade do fio da guilhotina sobre a economia de um país.”

(Ivan Teorilang)

Ainda hoje, em alguns momentos, nos assustamos com a globalização. Ela facilita muito, ajuda muito, mas os problemas também são distribuídos. Essa atual crise financeira que estamos passando, quem (falo dos reles mortais como eu) poderia imaginar que as hipotecas dos Estados Unidos poderiam arrasar toda a economia mundial? Países de economias antes consideradas estáveis hoje estão afundados em dívidas, com altas taxas de desemprego, como é o caso da Itália, Portugal, Grécia. Mais interessante (?) ainda é que essa jogada já foi cantada do final da década de 20.

Pós I Guerra Mundial (1914-1919), os Estados Unidos apresentavam-se como centro das finanças mundiais. Tinham crescido muito durante o conflito, tinham pouquíssima dependência do comércio externo e políticas protecionistas, além de beneficiar-se da situação da Europa que, arrasada, necessitava de empréstimos a qualquer custo, dando aos EUA (credor mundial) a possibilidade de estipular os juros que bem entendessem.

"No final dos anos 20, os Estados Unidos estavam em plena euforia econômica. A agricultura, tida como a mais mecanizada do mundo, inundava de alimentos o mercado interno e externo. As indústrias funcionavam a todo vapor, transformando pessoas comuns, principalmente as da classe média, em consumidoras compulsivas. Economias de uma vida inteira eram confiadas às firmas da Wall Street e investidas na Bolsa de Valores de Nova York. Todos acreditavam que a prosperidade jamais terminaria - mas o crash de Wall Street cortou a expansão econômica e as ilusões."
Mota e Braick (2002) 

 Mas qual a explicação pra tamanha desgraça senão uma crise de superprodução? O mercado não tinha condições de absorver tanta produção. A capacidade de consumo não se desenvolveu com a mesma intensidade do crescimento econômico. A renda ficou concentrada nas mãos das classes mais altas, enquanto a massa não tinha dinheiro pra consumir o que eles mesmos produziam. Tudo isso só se agravou quando a Europa se fechou pra curar as cicatrizes da Guerra. Deixou de importar tanto, começou se reerguer industrialmente, aumentou as taxas alfandegárias... Alguns países atrasaram o pagamento das dívidas...

Aí já viu! Era muito o que vender e ninguém pra comprar. A tese do liberalismo econômico cai. Junto com ela os preços, os investidores queriam se livrar de suas ações mas não tinha a quem... E começou o caos generalizado. Praticamente todos os países do mundo foram afetados. O Brasil, que vivia o ciclo do café, não tinha mais como escoar sua produção; os EUA, principais compradores do produto, tavam vendendo a mãe iam comprar café?! Foi um efeito dominó.

No meio da confusão, quando tudo parecia perdido, chega ao poder Roosevelt, lançando o New Deal. Se o liberalismo tinha morrido ele acaba de enterrar. Esse plano tinha o objetivo de resgatar o crescimento econômico interrompido pelo chash. Nele, são impostas medidas como:
  • Intervenção do Estado na economia;
  • Intensificação da vigilância sobre as atividades bancárias;
  • Regulamentação de sindicatos;
  • Criação do Seguro Desemprego;
  • Realização de obras públicas;
  • Subsídios aos que interrompessem a produção agrícola.

Em complemento à política econômica interna, o governo de Roosevet estabeleceu relações cordiais com a Europa e a Ásia. Além disso, propôs que o país adotasse uma política de abertura, entendimento e colaboração internacional, mas de acordo com a realidade dos novos tempos.

Essa associação de medidas tirou da lama os Estados Unidos e a maioria dos países afetados com a crise. Os EUA recuperaram sua força econômica ao ponto de apresentarem-se na II Guerra Mundial como principal potência econômica.

E falando em II Guerra, cabe dizer que a Crise de 1929 foi, digamos, a cebola da comida, que entra primeiro, fica cozinhando e dá aquele gostinho especial (gordices). Durante a depressão mundial, grupos nacionalistas de extrema-direita passaram a utilizar a crise como desculpa para atacarem todo o sistema liberal-capital e para exigirem políticas "nacionalistas" mais positivas, apoiadas por uma ditadura, se necessário. Nesse contexto, surgem os regimes fascistas.

Mas ainda tem outro ponto fundamental durante a crise. Lembram que eu disse lá em cima que "praticamente todos os países do mundo foram afetados"? Sabe qual a única exceção? A recém formada União Soviética. Nesse mesmo período, a URSS entrava numa faze de industrialização extremamente rápida e intensa. A economia crescia devido ao lançamento dos Planos Qüinqüenais, que estipulavam o que produzir, como produzir e como distribuir. A planificação, não o mercado visava satisfazer às necessidades da sociedade. E o mundo começou a encarar verdadeiramente o socialismo como uma ameaça.

Tudo com a Crise de 1929.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Todo o poder aos sovietes

"Ditadura do proletariado ou sobre o proletariado?"
Leon Trosky

E vocês aqui de novo, né? Gente, sempre adorei a Revolução Russa, os princípios, as causas; mas, confesso, nunca lembro aquela sucessão de mínimos detalhes que praticamente todo livo e professor insistem em nos passar. Por esse motivo, esse post é bem direto, sem muitos arrodeios, datinhas ou nomes; quero me ater aos fatos. Deixo bem claro que o texto a seguir é a minha opinião sobre os fatos mais relevantes da Revolução. Se me limitei demais, ou se omiti demais, perdoem-me. E vamos ao trabalho.


A Rússia, como todo sabem, é do tamanho do mundo. Agora vocês imaginem aquilo tudo controlado por um governo czarista (imperial), despótico, com resquícios do feudalismo e quase falido. A população, coitada, vivia na miséria; praticamente 80% da mesma vivia no campo, passando fome e frio. Tudo só piorou com o projeto de industrialização (séc. XIX), apoiada pelas potências industriais. Como não havia legislação trabalhista, o proletariado era explorado. A concentração de renda foi aumentando... E a difusão dos ideais marxistas também.

Em 1898 é criado o Parido Operário Social-Democrata (POSD), que só serviu pra ser dividido entre bolcheviques e mencheviques. Os primeiros, liderados por Lênin, defendiam uma revolução proletária, conduzida por uma organização clandestina, centralizada e submetida a rigorosa disciplina (Ditadura o Proletariado). Os segundos, alegavam que a luta contra o czarismo deveria passar por uma etapa democrático-burguesa bem delimitada, só depois se colocaria a revolução socialista.

E, enquanto se discutia ideologia, a Rússia perdia a Guerra Russo-Japonesa. Aí pegou fogo! A insatisfação popular foi nas alturas. Então eles foram ensaiar a guerra. Em 1905, vários processos revolucionários se desencadearam. Dentre eles, o mais importante foi o Domingo Sangrento, no qual os milhares de manifestantes foram dizimados a mando do czar Nicolau II. Pra tentar conter a situação, ele lança o Manifesto de Outubro, onde promete o respeito à liberdade civil e reforma agrária. Mas não serviu muito, a confusão já tava armada. Pra findar, se envolve na I Guerra Mundial. Me diga: não tinha dinheiro, não tinha preparação, QUE DANADO TAVA FAZENDO NA GUERRA?. Algum tempo depois ele abdica.

Para governar o país em caos, assume o Governo Provisório, liderado pelo Príncipe Lvov. De início ele procurou trazer os algumas correntes revolucionárias menos radicais para o seu lado dando-lhes cargos, extinguiu a autocracia, limitou a jornada de trabalho e separou Igreja Ortodoxa e Estado. Mas dois erros lhe foram fatais: a manutenção da Rússia na Guerra e a extinção do POSD, que passou a atuar na clandestinidade.

A situação interna tornou-se insustentável e os revolucionários tomaram o poder em 1917, liderados por Lênin. Eles adotaram diversas medidas  nos mais diversos campos para que a velha ordem fosse destruída e saíram da I Guerra Mundial. Mas não foi tudo tão fácil. Eclodiu a Guerra Civil, travada entre o Exército Vermelho (socialistas) e o Exército Branco (capitalistas, monarquistas e conservadores). Pela desorganização e impopularidade, os Brancos foram derrotados e a nova ordem reafirmada. Entretanto, para o povão tudo piorava. Mais fome, mais frio, mais miséria e agora guerra.

Nada dava certo pra Rússia. O projeto socialista não estava chegando à massa. Com o objetivo de reverter esse quadro, são dados "um passo para trás para dar dois à frente. Em 1921 é lançada a Nova Política Econômica (NEP), que consistia basicamente no recuo de alguns aspectos do comunismo. É permitida a existência de um setor privado, são formadas cooperativas agrícolas, é extinta a gratuidade dos serviços e são atraídos capitais estrangeiros (empréstimos). Há abertura econômica, mas não política.

Em 1922, é oficialmente criada a Ex-União das Repúblicas Socialistas Soviética (EX-URSS). Lênin continua no governo, mas não consegue conter a hipertrofia do Estado. Até que ele bate as botas e começa outra disputa pelo poder. Trotsky X Stálin. Trotsky queria a expansão do socialismo na Europa. Stálin, o fortalecimento do mesmo na EX-URSS. Após algum tempo, Stálin assume o poder. Seu governo é marcado pelo totalitarismo, crescimento econômico e industrial  e perseguição a oposição. Trotsky é exilado e morto.

 EX-URSS cresce muito, se torna a segunda maior potência mundial após a II Guerra, trava a Guerra Fria com os EUA e cai. Até o seu desaparecimento, em 1991, foi vista como a pátria do socialismo real, etapa necessária do projeto de construção do comunismo, isto é, de uma sociedade sem classes.

Muitas foram as teses sobre a razão da queda do socialismo. As cinco principais são: a tentativa de gerar desenvolvimento econômico e justiça social; as medidas econômicas de Gorbachev; o Estado operário com deformações burocráticas; o capitalismo de Estado; e o coletivismo burocrático. Fato é, o capitalismo nunca esteve totalmente desassociado da EX-URSS, e me pergunto se ele realmente poderia estar.

domingo, 11 de setembro de 2011

O dia que nunca acabou

"Quem se entristece pelas mortes no 11/9 deveria se entristecer igualmente pelas mortes todos os dias no Afeganistão e no Iraque."


Olá, pessoas! Antes de mais nada, gostaria de dizer que essa é uma micropostagem extremamente pessoal. 

Vocês já devem estar por dentro de cada espirro que foi publicado sobre o 11/09/2001, então não vamos mais comentar esse lado da história. Passei a semana inteira pensando em como abordar o assunto de uma maneira diferente. Não tinha tido muita idéia, até entrar no meu quase extinto Facebook e ver o comentário acima de um amigo.

Há dez anos, os Estados Unidos eram literalmente os donos do mundo. Antes que mandem me matar, não acho que isso tenha acabado, mas acho que eles perderam muito daquela superioridade. Há dez anos, eles viviam superávits cada vez maiores a cada ano. Após o 11/09, muito mudou. As empresas de seguros quase faliram e aí foi a primeira grande intervenção financeira do Estado. Posteriormente, apenas em dois anos (2003 e 2008) sua economia voltou a crescer no mesmo ritmo. Os políticos, apesar de toda a insatisfação popular, acabam usando essas milhares de mortes ao seu favor. As mídias todos os anos fazem o sensacionalismo que lhe é peculiar. E nós nos lembramos do que estávamos fazendo, de como recebemos a notícia...

Mas, quero que me responda sinceramente, você se lembra do que aconteceu depois? Do que acontece ainda hoje? A mídia nos lembra?

O sofrimento estadunidense (recuso-me infinitamente a chamá-los de "americanos") é mais notado hoje que naquele dia. Após a queda do WTC e os ataques ao Pentágono, o que se viu foi um sentimento de vingança, de revanche. Como uma criança mimada que diz "você me paga". E pagaram com mais mortes. Mortes dos seus, mortes alheias. Mais uma vez brincaram de Deus. Usaram de desculpas estúpidas e nacionalismo exacerbado para invadirem Iraque e Afeganistão, jurando estar protegendo o mundo.

Faço, nesse momento, minhas as palavras do meu amigo estudante de medicina (e namorado de Lorena). Quanta gente hoje chora pelos mártires daquela tragédia, mas nem lembra dos que morrem todos os dias pagando uma conta que não é sua? Quanto ainda está escondido? Quando saberemos a verdade, nua e crua, dos fatos, sem extremismos ou panos quentes?

Espero, sinceramente, que essas mortes não tenham sido em vão.

Aos falecidos no 11/09, e aqui incluo os que morreram e morrerão nesse dia, que descansem em paz.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A I Guerra Mundial e o nascimento de um breve século

"A guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas num lapso de tempo durante o qual o desejo de rivalizar através de batalhas é suficientemente conhecido."
Thomas Hobbes - Leviathan

Por muito tempo, a I Grande Guerra foi escondida vista como um ato de heroísmo e sacrifício. Mas não se iludam, meus amigos: o primeiro conflito mundial foi um choque entre duas civilizações, cada uma decidida a aniquilar, exterminar e mandar pro quinto dos infernos a outra. Nesse sentimento bonito e recíproco, você acredita mesmo que exista algum "guardião do mundo", como estudado até poucos anos?

Como vocês leram em "Os donos do mundo e a expansão do Imperialismo", (...) Como é? Não leu? É a postagem anterior. Duas postagens em dois dias... não estranhem (nem acostumem). Vai dar uma lida rapidinha que eu espero. (...) as tensões na Europa aumentavam. E vocês sabem como é briga de gente grande! Iniciou-se uma corrida armamentista utilizando como teste a Ásia e a África, o que ~ajudou~ as potências a manterem seus controles neo-coloniais. Além disso, houve a unificação da Alemanha e da Itália nesse meio tempo. Por ser um processo tardio, se comparado aos outro países do velho mundo, essas novas nações se viram prejudicadas na "nova" doutrina imperialista, uma vez que controlavam territórios menores e menos ricos.

A Alemanha pós unificação se desenvolveu monstruosamente rápido. Logo tornou-se uma potência, desenvolveu tecnologias mais avançadas, com produtos de qualidade superior aos ingleses. A concorrência se estendia à esfera financeira: os empréstimos alemães eram mais vantajosos que os dos banqueiros britânicos. Mas não, meus amigos! Não foi nada isso que deixou a Inglaterra rodando a baiana! Sinta o drama: o Império Alemão decidiu que iria se tornar uma potência naval. Mas quem era mesmo a rainha dos mares? Isso mesmo (vocês tão bons nisso, né?! sem nenhuma ajuda!). Pois é, só que a Alemanha tinha muito mais tecnologia e cada aperfeiçoamento britânico logo era copiado e aperfeiçoado. Quer dizer: a Alemanha deixa de ser uma concorrente e passa a ser uma ameaça à Inglaterra.

Nesse meio tempo começou a política das alianças, na qual foram formadas a Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália) e Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia). Você pode ou não estar se perguntando: Inglaterra e França aliadas? Sim, meus caros. A França perdera os territórios da Alsácia-Lorena para a Alemanha e a Inglaterra estava perdendo tudo pra Alemanha (Alemanha em todas). Não se tratava mais de uma briguinha besta de desde que o mundo é mundo entre franceses e ingleses, mas de uma ameaça dos dois virarem uns zé ninguém no cenário mundial. Agora tudo faz sentido, não é?

Com tudo isso, surgiram doutrinas ufanistas, ou seja, de nacionalismo exacerbado, xenofobia e idealização da expansão territorial. Teve a Sérvia querendo anexar a Bósnia-Herzegovina (alguém aqui estudou com Maria Luíza no IF?), a Rússia querendo ser líder e ~proteger~ os eslavos no Pan-eslavismo, os germânicos querendo ficar juntinhos no Pan-germanismo, e mais um monte de frangagens.

Nesse momento bonito em que todos querem matar todos, acabam matando é o herdeiro do trono Austríaco, Franz Ferdinand (e não, não é aquela banda que toca Take Me Out. tá em inglês por quê é mais bonitinho que Francisco Ferdinando). E foi o pretexto que queriam para começar a brincadeira guerra.

De 1914 à 1916 não tem muito o que falar da guerra, não. Foi uma coisinha muito sem graça, sem nenhuma perspectiva de fim. Só tem a Itália que, como uma boa gilete, troca de lado pra ver se ganha alguma coisa (colônias). A partir de 1917 é que as coisas começam a se definir. A Rússia sai da guerra porque já tem a sua própria (Revolução Russa). Assina um tratado de nome difícil (Brest-Litovsk), cede umas terrinhas, reconhece umas independências e pega o beco.

Os Estados Unidos, bem quietinho em seu lugar, apenas se beneficiando do bafafá que tava acontecendo na Europa, entra na guerra. Muito despretensioso, como lhe é peculiar, até então vendia mantimentos, armas e tudo o que os desgraçados do outro lado do mar precisassem. E com sangue novo, finalmente a Entente vence a guerra em 1918.

Mas não, meus amores, a História não acaba por aqui. Os vencedores da I Guerra Mundial fazem um acordo com a Alemanha, o Tratado de Versalhes, o qual a mesma assina por livre e espontânea pressão. Nesse ~acordo~, os alemãs são punidos severamente, uma vez que reconhecem que causaram o conflito. Nas consequências disso, pagam altississíssimas indenizações, devolvem territórios e reduzem seu exército apenas para o controle dos civis. Os austríacos também não ficam de fora. Têm seu Império desmembrado.

No fim de tudo, o conflito que traria paz para o Velho Mundo trouxe foi mais reboliço. A Europa, arrasada pela guerra, deixa de ser  foco das decisões mundiais, que passam para os Estados Unidos. Esses souberam aproveitar bem a desgraça alheia e cresceram muito. A Itália, que venceu mas não teve os benefícios que esperava, e a Alemanha, reduzida à segunda pessoa depois de ninguém, começam seus regimes totalitários e revanchistas que dão origem à II Grande Guerra (já percebeu que a Alemanha sempre começa tudo?). Em suma: o conflito que traria paz para o mundo trouxe foi mais guerra.