“A intensidade da propaganda da crise, poderá ditar a velocidade do fio da guilhotina sobre a economia de um país.”
(Ivan Teorilang)
Ainda hoje, em alguns momentos, nos assustamos com a globalização. Ela facilita muito, ajuda muito, mas os problemas também são distribuídos. Essa atual crise financeira que estamos passando, quem (falo dos reles mortais como eu) poderia imaginar que as hipotecas dos Estados Unidos poderiam arrasar toda a economia mundial? Países de economias antes consideradas estáveis hoje estão afundados em dívidas, com altas taxas de desemprego, como é o caso da Itália, Portugal, Grécia. Mais interessante (?) ainda é que essa jogada já foi cantada do final da década de 20.
Pós I Guerra Mundial (1914-1919), os Estados Unidos apresentavam-se como centro das finanças mundiais. Tinham crescido muito durante o conflito, tinham pouquíssima dependência do comércio externo e políticas protecionistas, além de beneficiar-se da situação da Europa que, arrasada, necessitava de empréstimos a qualquer custo, dando aos EUA (credor mundial) a possibilidade de estipular os juros que bem entendessem.
"No final dos anos 20, os Estados Unidos estavam em plena euforia econômica. A agricultura, tida como a mais mecanizada do mundo, inundava de alimentos o mercado interno e externo. As indústrias funcionavam a todo vapor, transformando pessoas comuns, principalmente as da classe média, em consumidoras compulsivas. Economias de uma vida inteira eram confiadas às firmas da Wall Street e investidas na Bolsa de Valores de Nova York. Todos acreditavam que a prosperidade jamais terminaria - mas o crash de Wall Street cortou a expansão econômica e as ilusões."
Mota e Braick (2002)
Mas qual a explicação pra tamanha desgraça senão uma crise de superprodução? O mercado não tinha condições de absorver tanta produção. A capacidade de consumo não se desenvolveu com a mesma intensidade do crescimento econômico. A renda ficou concentrada nas mãos das classes mais altas, enquanto a massa não tinha dinheiro pra consumir o que eles mesmos produziam. Tudo isso só se agravou quando a Europa se fechou pra curar as cicatrizes da Guerra. Deixou de importar tanto, começou se reerguer industrialmente, aumentou as taxas alfandegárias... Alguns países atrasaram o pagamento das dívidas...
Aí já viu! Era muito o que vender e ninguém pra comprar. A tese do liberalismo econômico cai. Junto com ela os preços, os investidores queriam se livrar de suas ações mas não tinha a quem... E começou o caos generalizado. Praticamente todos os países do mundo foram afetados. O Brasil, que vivia o ciclo do café, não tinha mais como escoar sua produção; os EUA, principais compradores do produto, tavam vendendo a mãe iam comprar café?! Foi um efeito dominó.
No meio da confusão, quando tudo parecia perdido, chega ao poder Roosevelt, lançando o New Deal. Se o liberalismo tinha morrido ele acaba de enterrar. Esse plano tinha o objetivo de resgatar o crescimento econômico interrompido pelo chash. Nele, são impostas medidas como:
- Intervenção do Estado na economia;
- Intensificação da vigilância sobre as atividades bancárias;
- Regulamentação de sindicatos;
- Criação do Seguro Desemprego;
- Realização de obras públicas;
- Subsídios aos que interrompessem a produção agrícola.
Em complemento à política econômica interna, o governo de Roosevet estabeleceu relações cordiais com a Europa e a Ásia. Além disso, propôs que o país adotasse uma política de abertura, entendimento e colaboração internacional, mas de acordo com a realidade dos novos tempos.
Essa associação de medidas tirou da lama os Estados Unidos e a maioria dos países afetados com a crise. Os EUA recuperaram sua força econômica ao ponto de apresentarem-se na II Guerra Mundial como principal potência econômica.
E falando em II Guerra, cabe dizer que a Crise de 1929 foi, digamos, a cebola da comida, que entra primeiro, fica cozinhando e dá aquele gostinho especial (gordices). Durante a depressão mundial, grupos nacionalistas de extrema-direita passaram a utilizar a crise como desculpa para atacarem todo o sistema liberal-capital e para exigirem políticas "nacionalistas" mais positivas, apoiadas por uma ditadura, se necessário. Nesse contexto, surgem os regimes fascistas.
Mas ainda tem outro ponto fundamental durante a crise. Lembram que eu disse lá em cima que "praticamente todos os países do mundo foram afetados"? Sabe qual a única exceção? A recém formada União Soviética. Nesse mesmo período, a URSS entrava numa faze de industrialização extremamente rápida e intensa. A economia crescia devido ao lançamento dos Planos Qüinqüenais, que estipulavam o que produzir, como produzir e como distribuir. A planificação, não o mercado visava satisfazer às necessidades da sociedade. E o mundo começou a encarar verdadeiramente o socialismo como uma ameaça.
Tudo com a Crise de 1929.
